A noção de liquidez, quando se refere às relações humanas, tem um sentido inverso ao empregado nas ralações bancárias, a disponibilidade de recursos financeiros. Para Bauman, a conotação usada nas relações entre os bancos traduz algo potencializador. Amor líquido, ao contrário, é a sensação dos bolsos vazios.
A área de estudo de Bauman é a sociologia, e o foco fundamental do retrato sobre a urgência de viver um relacionamento satisfatório dos cidadãos pós-modermo. No entanto, Bauman não oferece garantias de invulnerabilidade diante desta “selva de pedras”. É no sentido de minimizar as agruras sofridas pelos homens e mulheres no contexto do mundo globalizado é que segue a obra o “Amor líquido”.
Nesse contexto, segundo o autor, o sexo fora o primeiro ingrediente de que o homo sapiens foi naturalmente dotado. Desse modo, o desejo sexual foi e continua sendo a mais óbvia, indubitável e social. Esse desejo é estendido em direção de outro exigindo sua presença e se esforça para se transformar em união. Ele (o desejo sexual) anseia por convívio. Na verdade, Freud tinha razão: a pulsão vive em busca da satisfação plena e como isso é inviável porque tudo aquilo que ela se satisfaz é um objeto substituto ela jamais cessará. Se porventura isso não for efetivado torna o ser humano incompleto e insatisfeito. Temos então a configuração do cenário hodierno.
Existe inequivocamente uma cooperação entre Cultura e Natureza. Bauman fala de uma “ars erotica” cuja criação é eminentemente cultural, que guiara o impulso sexual na direção de sua satisfação no convívio humano. Para Foucault, autor que escreveu “História da Sexualidade” ele pontua de que maneira seria esta ars erotica: consistia no saber sobre o prazer, com o intuito de ampliá-lo, e que este prazer seria extraído do próprio saber. Foucault dizia que os ocidentais eram levados a confessar tudo, expor seus prazeres, algo que já era uma obrigação já internalizada.
Ainda na obra “História da Sexualidade”, outro conceito trabalhado por Foucault é da scientia sexualis. Segundo ele, também seria uma processo de confissão estabelecendo uma relação de poder, onde aquele que confessa se expõe, produz um discurso sobre si, enquanto o outro ouve interpreta o discurso. Redime. Doravante domina. Tais conceitos se coadunam perfeitamente num curso da obra baumaniana. Mas o que Bauman sustenta em sua obra é que indubitavelmente o conceito que prevalece na pós-modernidade é conceito de scientia sexualis.
Para ilustrar o (des) compasso vigente na contemporaneidade, o autor ilustra da seguinte forma o que vem acontecendo: “É como se Antero, irmão de Eros e gênio vingativo do amor rejeitado, tivesse tomado de seu irmão o domínio sobre o reino do sexo. Hoje, a sexualidade não condensa mais o potencial de prazer e felicidade. Ela não é mais mistificada positivamente como êxtase e transgressão, mas negativamente, como fonte de opressão, desigualdade, violência, abuso e infecção mortal”. E numa releitura freudiana é como se o primeiro objeto de satisfação se perdesse na seara enigmática na instância do inconsciente. Podemos também pensar no recalque primevo.As informações parece estarem sendo jogadas, mas é essa a finalidade.
Segundo o autor Bauman, a agência de Antero, a scientia sexualis, não reduziu seus devotados. Ao contrário, a demanda por seus serviços, tende a crescer, não a diminuir, já que eles nunca adiam o cumprimento de suas promessas. A ciência sexual continuará a existir, porque a miséria sexual se recusa a desaparecer.
A impressão que temos é que Eros está morto. Mas aqueles que crêem nesta possibilidade estão equivocados. Segundo Bauman, Eros fora exilado do seu domínio hereditário – tal como Escobar- personagem Machadiano, diferentemente de Escobar que foi condenado à morte, Eros recebeu uma pena mais branda e foi mandado a perambular pelas ruas numa infindável e eterna vã procura de abrigo. Bauman diz que: Eros pode ser encontrado em toda parte, mas não permanecerá por muito tempo em lugar algum. Tal prerrogativa tem ressonâncias pela contemporaneidade.
Abandonado pelos espectros da maternidade e paternidade este “homini sexuali” é destituído paulatinamente. Nesse contexto, os médicos competem com os homini sexuali pelo papel de autores principais do drama. Segundo Bauman, houve época em que existiam lares/oficinas, em que os filhos eram produtores. Metaforicamente falando, o filho nesse “cenário de caos” seria a ponte de algo mais duradouro. Mas a margem a que essa ponte conduz está coberta por uma neblina que ninguém espera que venha se dissipar. Segundo o autor, mesmo que viesse uma súbita rajada de vento e afastasse a neblina, ninguém saberia ao certo que tipo de margem iria revelar, nem se da nevoa emergiria uma terra suficientemente firme para sustentar um lar permanente.
No mesmo contexto, os filhos eram tidos como objetos de consumo emocional. Formar família seria como se pulássemos de cabeça em águas inexploradas e de profundidade imensurável. Tomar consciência de tal compromisso poderia ser uma experiência traumática. Outros atenuantes se somatizam: a depressão e as crises conjugais pós-parto parecem enfermidades especificas de nossa “modernidade liquida”, da mesma forma que anorexia, a bulimia e encontráveis variedades de alergia. É esse o triste cenário da fragilidade nas relações pessoais.